Enem 2023: trabalho de cuidado e a Educação Básica

Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”: você sabe o que o tema da redação do Enem 2023 quer debater com os estudantes? O fato é que o tema tão grande como esse pode assustar, afinal, são muitas informações – e poucas inseridas, de fato, na educação básica brasileira. Para iniciar nossa discussão aqui, saiba que o foco é a “invisibilidade do trabalho de cuidado realizado por mulheres”, mas como estudantes que estão terminando o ensino médio poderiam saber sobre isso? E aí, pronto para discutir o tema e a realidade educacional brasileira?

Trabalho de cuidado e sua relação com a invisibilidade e a mulher

Antes de falarmos sobre a educação básica, vamos entender o tema. Uma pesquisa Oxfam Brasil, em 2020, já trazia dados e relatos surpreendentes sobre esse tema. Vamos entender um pouco, então, sobre o assunto.

Trabalhos domésticos – comumente e amplamente realizados por mulheres – são exemplos de “trabalho de cuidado” que são invisibilizados. Por meio de uma cultura que ainda sustenta a ideia de que estar em casa e cuidar dela e dos filhos não é trabalho, diversas são as causas que levam ao entendimento da insignificância desse tipo de labor, pouco e não remunerado.

Há, ainda, aquelas mulheres que se dedicam a cuidar de parentes em situações de doenças, deixando o trabalho formal para se dedicar exclusivamente a essas causas. Quando se trata de parente, é comum que sejam feitas permutas e a pessoa não receba tanto salário quanto reconhecimento. Quando se trata de pessoas fora do convívio familiar, o salário para as horas de trabalho dedicado é muito abaixo que se espera.

Preconceitos

Outro importante fator que leva ao “trabalho de cuidado” ser invisível é uma questão social a qual faz com que as mulheres que exercem esse trabalho, em alguns casos, não têm formação para a atuação na área, sendo algo culturalmente construído. Diante disso, o que se tem é que se justificam os péssimos salários por considerar apenas que uma educação formal é que atribuiria um salário digno a essas pessoas.

Além disso, questões de raça ainda pesam nessa balança, pois, como se percebe nas pesquisas sobre o assunto, boa parte das mulheres são negras ou pardas. A verdade é que é pesada a realidade dessas mulheres, pois elas sofrem com a invisibilidade do próprio trabalho, mas também com preconceitos sociais, culturais que levam ao preconceito econômico.

Redação do Enem e a Educação Básica

Agora eu te convido a refletir sobre o abismo que anda crescendo entre competência escrita e a prova de Redação do Enem. Embora seja um tema de extrema importância e urgência, uma vez que ele pode promover a visibilidade de mulheres que são/foram segregadas na sociedade por essa e outras razões, o que temos, na prática, é uma lacuna educacional gigantesca que omite que determinados temas não entram nas salas de aula brasileira.

A abordagem de atualidades em eixos distintos é de extrema necessidade, contudo, cada dia mais a redação do Enem vem se tornando uma loteria. Os responsáveis por essa prova parecem se esquecer que seu foco é “examinar” os conteúdos debatidos no Ensino Médio nas escolas brasileiras e não colocar esses estudantes em contraste e debate com temas os quais a escola não trabalha e que as políticas públicas não cobram.

O erro está tanto na educação básica quanto na prova de redação do Enem. Se por um lado a escola não trabalha como deveria sobre esses temas, reproduzindo ainda um modelo de ensino pautado pela repetição e conteudismo; por outro, temos um exame que deveria aferir o ensino e acaba por promover um concurso de quem sabe mais sobre temas extremamente específicos ou generalziados que não são discutidos como deveria. Observem que o que eu chamo a atenção é na compreensão das lacunas educacionais desde a educação básica – que se omite de temas como esse – até no Enem que se omite que a escola não trabalha com tais temas.

O que percebedo é que há uma excessiva destoante entre o que se ensina e o que se cobra nas escolas e isso não é atual; há uma excessiva destoante das políticas públicas educacionais e a organização dos currículos e conteúdos escolares. O sistema educacional e o exame que o avalia o Enem parecem não conversar há um tempo.

Precisamos falar da “invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil” como também da “valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil” e todos os demais temas de redação do Enem, contudo, como cobrar que um estudante saiba sobre o assunto se não há política pública educacional efetiva para que esses e outros assuntos sejam abordados na escola, tampouco escolas que promovam uma organização interna para que esses e outros temas sejam foco de reflexão para além do “vai cair no Enem”.

Enquanto o sistema educacional brasileiro for ancorado no que “vai cair no Enem” e o Enem for baseado na expectativa do que “pode cair no Enem” seremos mais um tijolo na parede.

AutorProf. Dr. Renato Dering
Data da publicação: 05 de novembro de 2023.

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